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António Aleixo, national manager da Sony Ericsson disserta sobre a estratégia da novel joint-venture

«Não pensemos que o UMTS vai resolver as coisas porque isso é um mito. O UMTS aparece e vai permitir streaming de vídeo e por aí fora, sem dúvida. Agora vamos ver quem é que está nos tempos mais próximos interessado nisso e disposto a pagar…»

António Aleixo

António Aleixo transitou recentemente, no alvor dos seus 43 anos de idade, do cargo do cargo de vice-presidente da Ericsson portuguesa para o de national manager da filial da recém criada joint-venture Sony Ericsson Mobile Communications.

Em Portugal a parceria ainda está fase de implementação. São seis pessoas em processo de mudança para instalações próprias.

A propósito do apresentação internacional da gama de modelos a lançar pela marca ao longo do ano, o Telemoveis.com foi ouvir o seu responsável. Afável, António Aleixo falou-nos da estratégia nipo-sueca e fez questão de deliberada modéstia. A grande aposta da Sony Ericsson são os terminais multimédia, até lá, este ano, diz dar-se por satisfeito em manter no mercado nacional a quota conjunta das duas marcas. Devemos acreditar nele?

Como é que duas empresas com a dimensão e tradição da Sony e da Ericsson abdicam assim de parte de si? Isto é, como é que integração da Sony Ericsson se processou?

A Sony Ericsson Mobile Communications foi criada com base com base num acordo de princípio celebrado, se não estou em erro, em Março do ano passado. Trata-se de uma joint-venture entre a Sony Mobile e a Ericsson Mobile Communications, ou seja entre os dois braços de cada uma das empresas responsáveis pelas áreas dos telefones móveis. Entenderam as duas empresas mães que essa joint-venture seria frutuosa para ambas as partes. A ideia é juntar a experiência que a Ericsson possui a nível de novas tecnologias, plataformas e também a sua forte implementação a nível de diálogo com os operadores com outro know how muito importante que é o grande conhecimento de electrónica de consumo, multimédia e por aí fora… da Sony gerando valor acrescentado para ambas as empresas.

«Até agora houve a transmissão ao mercado de produtos tecnológicos. Falta é algo que ponha o utilizador a usar o telefone de uma determinada maneira e é nossa visão que neste momento existem três aplicações fundamentais que se podem traduzir na criação de novos hábitos para o utilizador… uma é o imaging, outra o entertainment e outra que é a conectividade…»

Foi acertado que esta nova companhia ia iniciar as suas actividades a 1 de Outubro do ano passado, e assim aconteceu. Ou seja, os funcionários locais de cada uma das empresas, no caso eu que era funcionário de uma, a Ericsson, e mais alguns colegas meus e o Armando Banha, que era funcionário da Sony, juntámo-nos.

Mas isso não gerou/gera conflitos de interesses?

Não. Formalmente somos funcionários – parte dos 3500 a 4000 a nível mundial – da Sony Ericsson. Em Portugal somos seis e constituímos uma estrutura essencialmente comercial, que lida com os clientes. Tentamos ter uma aproximação regional, no caso europeia, do negócio. Recebemos algumas actividades de suporte dos nossos colegas espanhóis tentando, ao fim e ao cabo, optimizar os recursos humanos que temos. Mas, respondendo mais directamente à sua questão: existe uma empresa, uma sucursal em Portugal da Sony Ericsson Mobile Communications que vai ter umas novas instalações na Avenida de Berna, onde estaremos só nós. De qualquer maneira partilhamos recursos, neste momento por exemplo beneficiamos dos sistemas de informação, de qualquer das casas mãe.

A cooperação entre as duas empresas em que é se pretende traduzir em termos práticos?

Vamos, como lhe disse, tentar optimizar para o nosso negócio algum know how, alguma experiência e obviamente alguns produtos de ambas as partes. Por exemplo, nos telefones móveis utilizamos as plataformas de hardware e software que são desenvolvidas por uma empresa que se chama Ericsson Mobile Platforms. Foram recentemente anunciados alguns acordos entre a Sony Ericsson e o grupo Sony, nomeadamente a Sony Pictures, a Sony Style e a Sony Music para aproveitar conteúdos especialmente para os nossos produtos. Obviamente que apesar de nós sermos uma empresa independente, vamos beber à experiência de cada uma das casas mãe.

No entanto, os modelos apresentados recentemente para lançamento ao longo do ano pela Sony Ericsson deixam a percepção imediata de serem uma continuidade do que a Sony e a Ericsson individualmente já estavam a fazer ainda sem grande entrosamento ou aparente estratégia comum…

Ainda não. Mas digamos que já fazem parte de uma estratégia de produto perfeitamente definida: Ou seja, até agora houve a transmissão ao mercado de produtos tecnológicos – fala-se muito da 3G, em GPRS, em WAP, nos chamados facilitadores, o SMS, o MMS etc… – isso tudo existe, está aí. Falta é algo que ponha o utilizador a usar o telefone de uma determinada maneira. Ou seja, que crie novos activos. É nossa visão que neste momento existem três aplicações fundamentais que se podem traduzir na criação de novos hábitos para o utilizador. Uma é o imaging, outra o entertainment e outra que é a conectividade. Estas três aplicações base são o fundamento do que estamos a apresentar como produtos. Pegando no imaging, neste momento o que fizemos?

«Não pensemos que o UMTS vai resolver as coisas porque isso é um mito. O UMTS aparece e vai permitir streaming de vídeo e por aí fora, sem dúvida. Agora vamos ver quem é que está nos tempos mais próximos interessado nisso e disposto a pagar…»

Pegámos num produto que já era da Ericsson, no caso o T68m, e desenvolvemo-lo incorporando-lhe novas potencialidades e juntando-lhe uma câmara digital para que o produto seja um facilitador de um novo hábito de utilização do telefone móvel que é a hipótese de recolha, transferência e arquivo de imagens.

Sendo que a expectativa do lançamento do UMTS já é antiga, os novos modelos, ao apostarem em antecipar algumas das suas facilidades «em cima» da 2,5 geração não traduzirão indirectamente algum pessimismo quanto à data de arranque da 3G? Isto é, na percepção de que, uma vez que, na realidade, o arranque deste está para durar, apesar de não ser o desejado, mais vale começar capitalizar o GPRS…?

Não, não… Não tem nada a ver com isso. O UMTS quer dizer muito rapidamente mais largura de banda. Ponto. Agora, existem aplicações que neste momento já existem que vão funcionar em UMTS mas que neste momento também podem funcionar a nível do GSM ou do GPRS. Agora, eu penso que quando se tenta vender ou transmitir produtos ao mercado só pela tecnologia não dá em nada. Se conseguirmos transmitir ao mercado, às pessoas, que tem algum valor acrescentado utilizar estes produtos já em GSM/GPRS não há nada melhor do que o fazermos para que a entrada do UMTS seja mais facilitada. Não pensemos que o UMTS vai resolver as coisas porque isso é um mito. O UMTS aparece e vai permitir streaming de vídeo e por aí fora, sem dúvida. Agora vamos ver quem é que está nos tempos mais próximos interessado nisso e disposto a pagar.

Mas isso traduz de facto algum pessimismo em relação às expectativas até agora vigentes no sentido de que não se pode colocar a oferta da tecnologia pela tecnologia como motor do processo…

Sim. Por exemplo, fala-se muito de que o WAP foi um flop… Se calhar não foi transmitida às pessoas a apetência para criarem novos hábitos à volta disso. Porque pura e simplesmente dizer-se que o WAP é impecável para ler as notícias quando eu por exemplo quando vou levar a minha filha de manhã à escola olho para o quiosque ao lado e vejo as notícias que veria no WAP mas muito mais barato e sem me chatear. Se calhar não é essa a aplicação certa. Penso que se aplicarmos bem o imaging e, por outro lado, o entertainment, aplicando a tecnologia para produzir jogos mais interessantes; cor; rapidez; downloads. Se conseguirmos transmitir às pessoas que aí está o cerne, no que é o nosso segundo objectivo e ponto estratégico, vamos ter sucesso…

Isso remete-nos para a problemática da produção e desenvolvimento de conteúdos para a terceira geração. Até que ponto a Sony Ericsson pensa envolver-se nela, se é que pensa?

Ao assinarmos acordos com o grupo Sony e com a Sun Microsystems para o licenciamento de Java o que estamos a fazer é colocar nos nossos produtos apetências. O Java é uma plataforma aberta para que os nossos parceiros possam desenvolver aplicações e nomeadamente jogos. Não é mais do que dizer ao mercado: isto funciona assim, é interessante e vocês podem desenvolver um modelo de negócio em seu torno. Agora, nós não vamos fazer negócio a vender os conteúdos vamos é criar as condições e criar a apetência dando alguns exemplos…

Falou do Java, outra questão candente são os sistemas operativos que vão ser utilizados pelos futuros telefones com a aliança de um lado da Microsoft com a Intel e do outro da Nokia, tentando agremiar em torno de si os demais fabricantes. Como é que perspectiva esta situação?

Nós temos um envolvimento muito grande no consórcio que criou a Symbian e estamos apostadas a continuar com ela. Que é também uma plataforma perfeitamente aberta. Obviamente que estamos sempre abertos…

Não deixa, no entanto, de ser uma aliança com o rival directo de sempre. A Nokia…

Há interesses comuns. Penso que é de mútua vantagem o desenvolvimento dessa plataforma assim como o fórum Blueethoth foi criado por nós. Porque é a tal terceira parte da nossa estratégia: a conectividade. No fundo a interactividade entre produtos. Temos diversas sinergias com os diversos fabricantes, Siemens, Nokia, Motorola e por aí fora… Obviamente que a união entre a Microsoft e a Intel se traduz nalguma concorrência, merece-nos respeito mas a nossa aposta neste momento é a Symbian…

A nível global a Sony Ericsson declarou estabelecer como objectivo atacar a liderança da Nokia…

Nós establecemos como objectivo primordial dentro de cinco anos sermos o líder na arena do «mobile multimédia». É isso que está dito e escrito. Entendemos que a área móvel dentro de cinco anos será essa. E queremos ser líderes.

Em Portugal, tem alguma quota de mercado em mente que ambicione atingir já este ano?

Neste momento é nossa intenção manter a quota. Não é nossa estratégia lutar pela quota embora, obviamente, gostássemos de manter o valor que ambas as marcas somavam que é aproximadamente entre oito e dez porcento do mercado.

Hugo D. Valentim