As borlas na internet estão a chegar ao fim

A era das borlas na Internet poderá estar a chegar ao fim, pelo menos nos sites que disponibilizam serviços ou conteúdos, uma situação catalisada também pela quebra nas receitas publicitárias.

A era das borlas na Internet poderá estar a chegar ao fim, pelo menos nos sites que disponibilizam serviços ou conteúdos, uma situação catalisada também pela quebra nas receitas publicitárias. Dos jogos on line aos leilões, das enciclopédias aos sites de troca de ficheiros musicais, os cibernautas vão ter de começar a abrir os cordões à bolsa se quiserem beneficiar de serviços que até aqui lhes eram oferecidos. O Napster terá marcado o início desta nova era da Internet. O site que permitia, até há duas semanas, a troca gratuita de ficheiros musicais entre mais de 56 milhões de utilizadores, foi obrigado por decisão judicial a colocar filtros nos títulos protegidos por direitos de autor. A Bertelsmann, gigante alemão para o sector da música, associou- se ao Napster em Outubro de 2000 e já anunciou que a partir do Verão irá começar a cobrar uma taxa de subscrição mensal aos utilizadores do site. Também a prestigiada Enciclopédia Britannica, até agora integralmente disponível em www.britannica.com, vai deixar de ser gratuita em Abril, tendo a empresa decidido instaurar uma assinatura mensal para quem quiser aceder aos seus conteúdos. Outras vítimas recentes desta nova política do mundo online são os fãs de basebol, que até aqui podiam acompanhar gratuitamente os encontros das suas equipas favoritas na Web. Mas a partir da próxima época, que se inicia em Abril, a Liga de Basebol norte-americana vai instaurar uma taxa de subscrição de 9,95 dólares (cerca de 2.000 escudos) pelas transmissões áudio no site. “Penso que as pessoas vão começar a pagar, como parece confirmar o ambiente pós-Napster que vivemos actualmente”, indicou o número dois da empresa Real Networks, Larry Jacobson. “Até agora as pessoas não pagavam nada na Internet, em parte porque ninguém lhes pedia”, sublinhou. Por exemplo, o escritor de ficção científica Stephen King publicou o seu último livro, “A Planta”, exclusivamente na rede. O livro, que foi sendo publicado por capítulos, podia ser descarregado na rede mas o autor pedia aos cibernautas que deixassem uma contribuição no site, sob pena de interromper a publicação online. Aparentemente, tratou-se de um sucesso já que as receitas foram até agora da ordem dos 600 mil dólares (135 mil contos) e os custos irrisórios. Outro exemplo é o site de viagens Bestfares.com, que exige um pagamento pelos seus serviços especializados e tem vindo a ganhar a aposta num mundo virtual dominado pelo “grátis”. O site, criado em 1996, pela revista Bestfares, compara todas as promoções de companhias aéreas com que trabalha ou com as quais pode negociar. Mais de 170.000 pessoas aceitam pagar 60 dólares por ano (cerca de 13.500 escudos) para ter acesso e beneficiar destas ofertas, num campo onde muitos sites concorrentes apresentam serviços semelhantes gratuitamente. Neste caso, a diferenciação faz-se pela qualidade. “Não vão certamente encontrar melhor posto de informações nesta área que a Bestfares.com”, assegurou o presidente da empresa, Tom Parson. A Bestfares.com orgulha-se de ganhar “muito dinheiro”, sem querer precisar o volume de negócios, num mercado onde cada vez mais concorrentes estão “no vermelho”. No entanto, exemplos como o do Bestfares.com ou do Wall Street Journal, que vende com sucesso assinaturas da sua edição online, são ainda um caso raro na World Wide Web. As ofertas dos leilões do Yahoo, por exemplo, caíram cerca de 90 por cento desde que o site começou a cobrar por este serviço em Janeiro. O site, que viu as suas receitas publicitárias caírem com o abrandamento económico norte-americano e a instabilidade das .com, tenta encontrar outras fontes de receitas. “Neste momento, os sites de conteúdos têm grande dificuldade em subsistir apenas com a publicidade. No entanto, vão encontrar grande resistência dos consumidores se lhes começarem a exigir pagamentos”, estimou um analista do grupo de consultoria Forrester, Dan OÈBrien. Os cibernautas pagam actualmente uma mensalidade variável para aceder à Web ou, no caso do acesso gratuito, o preço das chamadas telefónicas, considerando que esse montante já é suficiente pelo que encontram na rede. Muitos poderão estar dispostos a pagar o preço de certas paixões como a música, o vídeo, ou os jogos on line mas dificilmente pela informação e outros conteúdos, ainda que sejam de grande qualidade, defende OÈBrien. “Esta situação poderá alterar-se se muitos sites gratuitos forem à falência e os conteúdos de qualidade começarem a ser um bem escasso”, sublinhou o analista. Em Portugal, o mercado da publicidade online está ainda em fase de expansão, com uma taxa de crescimento anual prevista para 2001 de 175 por cento. O sector online representa em Portugal cerca de 0,8 por cento do total de compra do espaço publicitário, valor muito inferior à média mundial que em 2001 se deverá situar nos 2,8 por cento.