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Dossier Especial: O Radioamadorismo em Portugal, estado da arte

Pioneiros das comunicações móveis e sem fios, existem em Portugal cerca de cinco milhares e meio de radioamadores licenciados. Fomos ao seu encontro e auscultamos, em particular, o que tem para dizer a sua associação mais representativa: a REP, Rede de Emissores Portugueses, que comemorou em 2002 3/4 de século de existência…
ÍNDICE

I – A REP, Rede de Emissores Portugueses

a) REP, 75 anos de militância
b) Radioamadores de todo o mundo unidos. A IARU
c) Desafios na Era do Sem Fios. O problema das interferências
d) Afinal quanto custa ser radioamador?
e) Sede de comunicar. O que faz correr os radioamadores.
f) O associativismo português em crise
g) Uma missão cívica de relevo. Radioamadorismo e protecção civil
h) Carta de radioamador. Onde se tira? Como se faz a preparação?
i) A Nova Zelândia e mais além…
j) Conselhos para quem queira ingressar no universo do radioamadorismo
k) Estórias de solidariedade
l) Os ricos e famosos também gostam de radioamadorismo
m) A rádio etiqueta e os seus desvios

II – Testemunhos de outras associações. Actividades e desafios

n) GPDX, Grupo Português de DX
o) ARPA, Associação de Radioamadores da Planície Alentejana
p) ARBA, Associação de Radioamadores da Beira Alta

III – Ligações recomendadas

Hugo Valentim

Fundada em 1926, a Rede dos Emissores Portugueses (REP) celebrou este ano os seus 75 anos de existência. Pretexto aproveitado pelo Telemoveis.com para inquirir junto desta associação, representante única dos interesses portugueses na IARU (International Amateur Radio Union), do estado e desafios enfrentados pelo radiomadorismo no nosso país.

Não fora a placa dourada com a proclamação dos inquilinos, no quarto andar de um antigo edifício da Rua D. Pedro V em Lisboa, paredes-meias com o Príncipe Real, outro indício indesmentível denunciaria que ali há radioamadores: uma frondosa antena de comunicações coroa o telhado do edifício.

Não é caso único. Segundo a última lista disponibilizada pela Anacom existem em Portugal 5382 radioamadores licenciados dos quais 4520 no continente, 220 na Madeira e 642 nos Açores.

Vítor Paulino, actual presidente da REP

REP, 75 anos de militância

Vítor Paulino, actual presidente da REP, principiou o seu contacto com a rádio aos 14 anos, quando construiu as suas primeiras galenas (dispositivos receptores de rádio, muito populares outrora na forma de kits auto-montáveis, que tomam o seu nome do cristal de galeno que empregam).

Mais tarde, optou por cursar engenharia mecânica. O contacto com o radioamadorismo propriamente dito só adveio na vida adulta. Curiosamente foi em férias, no Algarve, que o relacionamento com um colega radioamador seu vizinho em Alverca veio fazer com que o “bichinho” se apoderasse dele.

Nesse ano, quando regressou a Lisboa foi tirar a carta – requisito fundamental para poder operar uma estação – actualmente passada por exame efectuado pela Anacom, Autoridade Nacional de Telecomunicações, antigo ICP.

Nunca mais parou. «Gosto de falar no rádio, de fazer engenhocas…», confessa.

Do hobby à militância associativa foi um passo. Sócio da REP há cerca de 15 anos, entendeu finalmente que devia dar um contributo activo para a vida da associação. Começaram por convida-lo para tesoureiro. Actualmente exerce o cargo de maior importância: a presidência.

Radioamadores de todo o mundo unidos. A IARU

«A Rede de Emissores Portugueses é a associação mais antiga do país», refere com orgulho o engenheiro Paulino. «A única associação de radioamadores que representa internacionalmente Portugal», pese embora existirem cerca de mais 40 associações repartidas pelo continente e ilhas.

Trata-se de um dos mais antigos membros da IARU, em que ingressou em 1932. «A IARU integra uma associação por país, defende os interesses dos radioamadores junto da ITU (International Telecomunications Union)», esclareceu-nos por seu turno o vice-presidente da REP, José Lopes. Responsável pelos contactos com a organização internacional e o homem que um sábado por mês se desloca de Oliveira de Azeméis à sede, em Lisboa para em conjunto com a demais direcção tratar dos assuntos pendentes.

A nível internacional os interesses em jogo passam sobretudo pela gestão e defesa das frequências atribuídas, crescentemente cobiçadas dado o crescimento exponencial de serviços que utilizam o espectro radiofónico, e pelo controlo do acesso ao equipamento disponível, incluindo satélites para radioamadores.

Sucede que, sendo uma espécie de rede informal de comunicações a nível mundial, o radioamadorismo é ainda um hobby de um tipo particular: não se faz a solo. É por natureza uma actividade partilhada e um acto de comunicação que precisa de quem o certifique (os concursos abundam). É também a este nível, mediante um serviço de troca de cartões (vede infra), que a IARU opera.

Desafios na Era do Sem Fios. O problema das interferências

Ao longo dos anos os radioamadores têm tido uma acção pioneira, desbravando caminhos e demonstrando o funcionamento das frequências que depois outros ocupam. Na realidade, quando nasceu, o radioamadorismo tinha para si virtualmente livre todo o espectro. Progressivamente a exploração comercial foi encurtando a sua margem de manobra. Direcção da REP

Numa altura em que a exploração das redes de comunicação móveis nunca esteve tão frenética e o espectro está povoado de toda a espécie de serviços, a começar pelas WLANs (redes locais sem fios para comunicação de dados, nomeadamente computadores e PDAs do tipo Palm Pilot e similares), é de esperar que a luta pelas frequências seja renhida.

«Não se nota muito porque as frequências são um bocado diferentes», explicou-nos apesar de tudo, optimista, José Lopes.

Mas as ameaças existem. A rede Galileu, projecto europeu de georeferência, por exemplo, poderá vir a ocupar um dos espectros usados pelos radioamadores.

Outro problema identificado pela REP diz respeito não a um serviço de emissão sem fios mas sim de distribuição de sinal de TV por cabo. Nalgumas zonas do pais, a TV Cabo transmite alguns canais nas frequências 140,250 MHZ para o vídeo e 145,750 MHZ para o áudio.

Sucede que a faixa dos 144,000 a 146,000 MHZ está reservada para a utilização amadora. Assim sendo, devido ao mau isolamento dos cabos e das caixas de ligação a frequência irradia de dentro do cabo e contamina o espectro inviabilizando o trabalho radioamador.

Este problema e outros, acredita a REP, seriam solúveis se os radioamadores fossem ouvidos e estivessem melhor representados nos órgãos próprios. No caso, trata-se de um plano aprovado pela Anacom que, na prática, mesmo que inadvertidamente, está a lesar os seus interesses.

O conhecimento teórico dos factos por vezes não chega para resolver alguns problemas práticos.

Afinal quanto custa ser radioamador? Um hobby para (quase) todas as carteiras

«Tudo depende das ambições das pessoas. Pode ser-se radioamador com um rádio que custe 20 contos ou com um rádio que custa 1500 contos», crê Vítor Paulino.

João Pereira, secretário da REP, é mais pragmático. Quem queira começar com algum aprumo imediato pode preparar 2000 euros: 1000 para um rádio razoável, «uma antena vertical custa umas boas centenas de euros Com cabos, fontes de alimentação etc… vai dar aos 2000 euros…» é uma questão de fazer as contas.

Mas se no princípio dos Tempos era o Verbo, para muitos radioamadores o princípio do hobby pode ser um kit auto montável. Com o tempo e a consolidação do interesse o equipamento acumula e podem chegar a ser 3 rádios VHS ou mais lado a lado.

Os radioamadores estão embutidos do espírito «engenhocas» e do «bricoleur». Adaptar o material e fabricar as suas próprias antenas é parte do aliciante da actividade.

Mas há outras «versões»: começar com um rádio em segunda mão por uma média de sessenta contos e improvisar manualmente uma antena ou então adquirir uma estação em kit para montar.

Entre os conhecedores há pelo menos um consenso: 80 a 100 contos é o gasto mínimo para quem se queira iniciar.

Carlos Moreira, tesoureiro da REP, deu-nos o seu exemplo pessoal: há 22 anos comprou o seu primeiro rádio. Na altura a um indivíduo recém-chegado das ex-colónias. Custou-lhe 45 contos. Desde então já comprou pelo menos mais dois equipamentos, todos de gama alta à altura da aquisição, por 300 e 1500 contos respectivamente…

Sede de comunicar. O que faz correr os radioamadores

Moreira entrou para o radioamadorismo através dos escuteiros tinha 17 ou 18 anos, fascinado pelo jambory noir. Começou pelo DX de longa distância. Hoje vive fascinado pelo que chama a «parte desportiva» e pelos diplomas que, em x contactos confirmados em dadas condições são atribuidos. Não esconde o seu fascínio pela parte das «montagens electrónicas, os kits e a sede da comunicação.»

Será que uma das grandes motivações dos radioamadores, a comunicação, não é hoje em dia – sobretudo para os mais novos – parcial ou totalmente preenchida através da Internet? Não existirá uma relação de «substituição»?

José Lopes tem uma interpretação contrária. Atribui mesmo ao radioamadorismo, através do «packet rádio», a criação pioneira de uma rede de comunicações que, no mesmo espírito e com algumas das suas facilidades originais, antecedeu o surgimento da Internet.

«Através das ondas curtas de rádio conseguimos criar uma rede mundial de telecomunicações com uma BBS (Boletin Board System) onde se trocavam informações vastas sobre o hobby. Hoje em dia a Internet é uma ferramenta de apoio.» Porém, num meio não substituto. Naturalmente, nota a título de exemplo, «através da Internet não consegue estudar a propagação ionosférica.»

A relação com a WWW é pois de complementaridade permitindo que cada colega radioamador agende com parceiros distantes a hora e a frequência para as suas tentativas de contacto.

Esta dimensão «global» é reforçada por uma rede de satélites (PacSat) se deslocam permanentemente em torno da Terra e permitem a troca de informação entre colegas em diversos continentes. O próprio POSAT (satélite nacional), desafectado por ter terminado o seu período de vida útil, vai continuar operacional mais uns anos para uso radiomador.

As redes móveis e a tecnologia móvel não deixaram, porém, de fazer mossa no número de radioamadores que, numa estimativa por alto, terá diminuído para metade nos últimos anos.

Os que saíram, diz quem está por dentro, foram os que tinham uma utilidade particular para o meio, servindo-se dele para comunicar à semelhança de um telefone.

Na actualidade existem cerca de cinco mil radioamadores licenciados, agrupados em 40 associações, algumas delas com fraca representatividade porém (10 ou menos sócios).

O associativismo português em crise

A Rede de Emissores Portugueses é uma instituição de direito privado, sem fins lucrativos. Declarada como Instituição de Utilidade Pública apenas em 1980, por despacho da Presidência do Conselho de Ministros, sobrevive exclusivamente com meios próprios. Uma tarefa difícil que tem obrigado a direcção a um permanente exercício de imaginação e boa vontade para o equilíbrio das contas.

Em 2001 o balanço foi negativo em 411.288 escudos.

Para 2002 a associação prevê, num balanço preliminar feito a meio do exercício, despesas na ordem dos 30.500 euros, dos quais boa parte consagrados a salários dos funcionários.

Trata-se de um orçamento manifestamente baixo que limita a capacidade de iniciativa da direcção mas que, mesmo assim, tem dificuldade em ser preenchido.

As fontes de receitas são quase exclusivamente as cotizações anuais pagas por cada associado (presentemente no valor de 30 euros cada). Muitos, embora inscritos, não regularizam as cotas, arrecadando-se uma média de 700 anualmente, o valor (30×700=21000)fica aquém dos custos de operação .

É por isso que a actual direcção da REP tem estado a apostar na campanha para a «quota 1000». Ponderando ainda aumentar o valor pago por cada sócio.

É que 30 euros/ano não é muito, atendendo aos dispêndios médios em equipamento a que um radioamador está sujeito.

Pratelerias de distribuição dos cartões QSL na sede da REP Com a filiação, os sócios recebem um conjunto de benefícios que incluem, além da recepção do Boletim Trimestral de 26 páginas, aberto ao contributo de todos e com temas da especialidade, o muito cobiçado serviço exclusivo de troca de cartões QSL que, através da IARU, lhes certifica os contactos com os outros colegas do mundo inteiro.

Trata-se de uma espécie de «fetiche». Cada radioamador tem o seu cartão personalizado. Quanto fala com outros colegas, manda o seu e recebe o do interlocutor.

Para além da decoração de cada cartão consta diverso tipo de informação: a frequência do contacto, a hora e o dia, o código usado na comunicação e a qualidade de emissão etc…

Presentemente a REP está ainda na eminência de retomar o seu «radiojornal», transmitido semanalmente em ondas curtas, mantendo a sede aberta a sócios e não sócios que a procurem todos os dias úteis das 13 às 19 horas, com a presença de dois funcionários.

Uma missão cívica de relevo. Radioamadorismo e protecção civil

Até ao 25 de Abril era necessário ser sócio da REP para praticar o radioamadorismo. Posteriormente esse requisito foi desfeito, proliferando assim as associações.

Este facto teve um aspecto positivo. Criou estruturas com maior capacidade de agremiação e dinamismo locais.

Por outro lado, se a «união faz a força», a «desunião» pode miná-la. É por isso que o engenheiro Vítor Paulino lamenta que muitos sócios das demais associações regionais se coíbam de participar cumulativamente na REP, a título de estrutura representativa nacional.

A coordenação faz falta a todos os níveis e não menos no diálogo e colaboração dos radioamadores com as instituições públicas. Colaboração que pode e deve ser estreita no tocante à montagem de planos alternativos de comunicações, em especial para fazer face a imponderáveis e catástrofes.

Em Portugal, com a criação da Protecção Civil, a formalização do papel dos radioamadores nos esquemas alternativos de comunicações em caso de catástrofe ou ocorrência invulgar foi progressivamente sido desfeita.

A REP, porém, voltou a ser recentemente contactada, existindo a perspectiva e a esperança de um entendimento para uma colaboração mais estreita.

O entrosamento não só é necessário como fundamental. Basta recordar o malogrado exemplo do onze de Setembro…

É que o radioamadorismo mantém um sistema de comunicações paralelo, de Norte a Sul do país. Com repetidores, antenas e capital humano que podem constituir um auxilio precioso para as autoridades, sobretudo no caso de imponderáveis como o sucedido em Nova Iorque onde – conforme noticiou o Televemoveis.com – a inoperância das antenas situadas no topo das torres gémeas deixou knock out durante largo tempo boa parte das comunicações da cidade.

Na caso da tragédia americana, o plano de emergência, tinha em conta os radioamadores, imediatamente activados.

Carta de radioamador, onde se tira? Há cursos?

A formação radioamadora deixa algo a desejar no nosso país. Na prática as falhas têm sido colmatadas pelo facto de a actividade tender naturalmente a ser prosseguida por pessoas com formação profissional ou académica nas áreas da electrónicas e das telecomunicações.

Não lhes é assim difícil fazerem o exame para obter a carta de radioamador imprescindível para o exercício da actividade, a qual existe em três categorias: A, B e C (da mais elevada para a mais básica).

Capa de um boletim da REP A diferença entre elas encontra-se ao nível da competência em telegrafia manual (isto é, código Morse) e nos privilégios que cada uma dá (mais potência de emissão e maior número de bandas e espaço nas mesmas para utilizar).

De resto, não existe – à semelhança, por exemplo, da carta de condução – literatura nativa capaz de dar resposta às solicitações pedagógicas nem, para esse efeito, qualquer curso expressamente concebido de preparação.

Tirar a carta de radioamador parte portanto de um esforço mais ou menos solitário de autodidactismo a que a REP acode, disponibilizando na sua sede a legislação relevante… e os pontos de exame da Anacom. Que, por sinal, não mudam.

Vítor Paulino tem uma visão crítica desta situação. Enquanto noutros países, como no Brasil e nos EUA – onde existem mais de 50 porcento dos radioamadores no mundo – as associações tem meios para promover cursos de preparação, em Portugal, admite, facilita-se demasiado.

A Nova Zelândia e mais além…

Contactos com a ISS (Estação Espacial Internacional)- onde existem infra-estruturas para receber a comunicação de radioamadores – são frequentes, embora os astronautas tenham um tempo muito curto, «só para ter o prazer de dizer que contactou a estação internacional».

Carlos Moreira fala ainda da naturalidade com que todos os dias um radioamador com meios tanto pode falar com a Nova Zelândia como com outro sítio qualquer. «De manhã falamos com a Zelândia, à tarde e à noite falamos com a América do Sul. É uma questão de tempo e de fusos horários.»

Ásia, Japão estão acessíveis. Os condicionamentos passam pela época do ano e pela intensidade da actividade solar: «Fevereiro e Setembro é óptimo para ter contactos com os japoneses…»

A informação trocada é de carácter predominantemente técnico. Passa pelo câmbio das identificações – uma vez que cada radioamador tem um código personalizado correspondente a nível do prefixo à sua área geográfica e um segundo número atribuído em função da licença – nomes, condições de trabalho e do equipamento e bem como comparação das condições de transmissão.

A ideia é explorar ao máximo as possibilidades de funcionamento e operação de cada frequência, entrosando a informação como a heliosfera, as condições atmosféricas e outras. Existem para esse fim sistemas de recolha de informação e fóruns onde os radioamadores dão conta das suas «experiências.»

Conselhos para quem queira a ingressar no Universo do radioamadorismo

«É facílimo comprar equipamento. O que é preciso é dinheiro. Não há controlo nenhum, é uma anarquia total». A acção da Polícia Judiciária demonstra que, no rol das apreensões, vêm por vezes rádios. Com o estado actual da informática, tornou-se relativamente fácil modificar os aparelhos para escutar frequências «proibidas».

Para esse efeito, porém, na Europa, o único país a exercer um controlo mais apertado, explica João Pereira, parece ser a Alemanha.

Mas há motivações mais «elevadas» e gratificantes. O radioamadorismo concentra o apelo das explorações árcticas com o fascínio do grande desconhecido e com a dose de sedução e mistério própria de quem desbrava um espectro de onda curta à espera de qualquer coisa… Estação radioamadora da REP no edifício sede

De facto, quando chega a uma frequência e pergunta três vezes, conforme manda o regulamento, «esta frequência está ocupada?» e, de seguida, enuncia o seu indicativo o radioamador permite-se esperar tudo. São instantes de expectativa. Do outro lado pode responder o colega do concelho ao lado ou, operando na onda curta, um desconhecido do outro lado do globo. É sobretudo este o «gozo» que se deve esperar.

Estórias de solidariedade

Este «lado humano» tem por vezes os desenvolvimentos mais inesperados. José Lopes contou-nos uma história de solidariedade passada em 1992. Regressava a Portugal depois de um período de férias em Espanha. Chegado à sua viatura, depois de parar em Benidorm para almoçar, constatou que esta tinha sido assaltada e lhe tinham roubado todos os pertences. «Fiquei apenas com os calções, eu e a minha família. Roubaram-me cartões de crédito, roubaram-me tudo.»

Porém, o rádio que levou consigo, ligado à viatura com umas fichas especiais, que na pressa do assalto os gatunos não conseguiram desligar, acabou por ser a única coisa a ficar para trás.

Embora o «código ético e de cortesia» do radioamadorismo desaconselhe o uso da frequência para fins «extra-hobby», em caso de situações de emergência é possível pedir ajuda a quem se encontre na frequência.

Foi assim que José Lopes conseguiu contactar primeiro uns colegas radioamadores de Madrid que conseguiram bloquear-lhe automaticamente os cartões de crédito, depois com uns colegas portugueses que contactaram familiares para que fossem esperar a Vilar Formoso, uma vez que o combustível também já escasseava.

Vulgar é também o caso de apelos para o envio de medicamentos raros. Num caso, um colega brasileiro lançou um apelo, caso de vida ou de morte, em que fazia saber que a esposa precisava de um determinado medicamento. Lopes, na altura a viver no Luxemburgo, não se poupou a esforços e teve de ir ao médico para conseguir a receita que seguiu imediatamente por avião.

Em 24 horas o medicamento estava no Brasil onde salvou uma vida. «Foi gratificante», admite com justificado orgulho.

O fascinante mundo das comunicações rádio e as suas surpresas. Os ricos e famosos também gostam de radioamadorismo…

A febre do radioamadorismo pica os mais mais ilustres e os mais insuspeitos. Em Portugal, o empresário José Roquete, que chegou a pertencer aos corpos sociais da REP, ainda é por vezes escutado a desejar os votos de bom ano novo. O rei Juan Carlos de Espanha é radioamador como o falecido rei Hussein da Jordânia o era. Estas personagens ilustres têm o privilégio, pelo seu estatuto, de usar indicativos especiais – por exemplo o monarca espanhol responde à chamada de EA0JC.

Carlos Moreira já passou por episódios curiosos. Um deles foi quando teve uma surpresa gratificante e inesperada: «um belo dia estava eu a chamar e às tantas ouço JIY0 (?). Como não estava à espera pedi várias vezes a confirmação do resto do indicativo… até que ele explicou que era o Hussein.»

Hoje, tem a satisfação de poder dizer que está «entre as duas ou três dezenas de estações nacionais que têm o cartão QSL do rei jordano.»

A militância radioamadora de Hussein é alias lendária. Quando adoeceu gravemente e foi internado num hospital norte-americano o monarca levou o seu equipamento de modo a aliviar-se dos seus padecimentos, desenvolvendo uma actividade radioamadora febril na fase terminal do seu cancro.

O próprio actor Marlon Brando, aquando do célebre exílio na sua ilha do pacífico, chegou igualmente a ser radioamador

A rádio etiqueta e os seus desvios

A possibilidade de ouvir as frequências das autoridades está legalmente impedida mas não deixa de ser possível… Trata-se de um uso «desvirtuado» mas real para uma franja marginal de radiomadores. Os aparelhos existem e, quando necessária, a sua modificação para tal fim não é demasiado dificíl.

Entre si, os radioamadores tentam respeitar as três regras fundamentais de cortesia «não se fala nem de política, nem de religião, nem de comércio», confidenciou-nos José Lopes. O que não impede a existência de algum desvirtuamento e que haja excessos (leia-se, na sequência deste artigo, os testemunhos de algumas associações nacionais).

Continuação… (Testemunhos de outras associações; ligações recomendadas…) >>>