Entrevista com Miguel Alfaia

O Telemóveis.com esteve à conversa com o responsável da área dos telemóveis da LG em Portugal, e onde se falou do estado actual do mercado portugês, das expectativas da marca em relação à 3G, e do universo fantástico de Júlio Verne.

Devido à recente entrada no mercado nacional dos telemóveis, decidimos ir ao encontro de Miguel Alfaia, o responsável da área dos telemóveis da LG no nosso país, a fim de recolher algumas impressões sobre o que a LG pensa sobre este mercado, o porquê da sua oposta nos terminais móveis, e ainda sobre quais os seus objectivos presentes e futuros.

A LG fez agora a sua entrada no mercado nacional dos telemóveis. Quais são os grandes objectivos?

O objectivo primário é sem dúvida aumentar as vendas de terminais GSM. O segundo é o de posicionar a marca junto dos consumidores, dos parceiros e operadores em relação ao UMTS.

É difícil entrar no mercado português nesta altura do campeonato? Porquê?

Entrar no mercado português é de facto muito difícil, e para isso é necessário ter algum cuidado, alguma calma, porque não estamos numa situação de mercado em crescimento, mas sim de uma maturidade muito grande do mesmo, e em que existe uma marca que tem uma quota fortíssima.

Sabendo que o mercado é actualmente dominado pelos operadores, como é que a LG pretende entrar no mercado? Mais através da venda livre ou terá forçosamente que fazer acordos com os operadores?

A LG está disponível para fazer acordos com qualquer operador…

Já existem contactos nesse sentido?

Já existem contactos…

Algum acordo já cimentado?

Não, ainda não existe nenhum acordo oficializado. A LG está em contacto com os vários parceiros: os quatro operadores, com a distribuição independente, o que significa que a empresa está perfeitamente inserida dentro daquilo que é o mercado português.
Mas para isso existem várias fases em que é preciso verificar se está tudo a funcionar bem, se os equipamentos estão adaptados ao mercado…

Às exigências do consumidor?

Sim, depois há toda essa parte do software. Mas acima de tudo estamos completamente disponíveis para conversar com os vários parceiros.

Qual a quota de mercado que a LG pretende atingir em Portugal?

Não, não temos nenhum número específico que queiramos atingir. Teremos de ter obviamente um orçamento próprio.

Mas existe algum “desejo oculto” de incomodar o líder de mercado?

Não, de modo algum. Estamos a falar de um mercado onde o líder detém porventura mais do dobro da quota em relação ao segundo, e este último talvez o dobro em relação ao terceiro.

O GSM vai servir para a marca atingir uma certa maturidade dentro mercado, ou é apenas uma fase de transição para a 3G?

Para a LG, o GSM por si só é também importante. Para já porque ainda se vão vender muitos terminais deste tipo em Portugal e na Europa. Por outro lado existe uma relação e uma forte maturação relativamente ao relacionamento com os operadores e com o consumidor final, onde é preciso criar e amadurecer muito estas relações.

Acredita que o GSM ainda se vai manter por muito tempo?

De certeza que ainda vai haver GSM durante muito tempo. Aliás, não é por acaso que o próprio UMTS vai arrancar como dual mode, uma vez que se trata de um processo onde durante alguns anos vamos ter de trabalhar com as duas tecnologias.

Ainda dentro da questão do GSM… Sabendo que a última “moda” é o MMS e os tons polifónicos. A LG faz uma aposta no Mobile Fun? Os telemóveis da LG são compatíveis com os vários formatos , nomeadamente o Nokia Smart Messassing System, o MMS e o EMS?

Nós iremos sempre tentar estabelecer todas estas compatibilizações com aquilo que é a tecnologia mais importante em termos de mercado. A LG será aqui, a esse nível, um seguidor, e não vamos aparecer com novas tecnologias.

Como é que a LG vê o possível atraso da 3G em Portugal?

Pensamos que em relação ao UMTS existe de facto um atraso àquilo que foi acordado em termos contratuais, mas não me parece que haja algum atraso em termos do que se passa no resto da Europa. No fundo, Portugal continua a ser um país de linha da frente em termos de telecomunicações. É uma questão global, e é preferível não haver precipitações no seu lançamento, verificar que todos funcionam com todos e garantir que existem as condições mínimas para que o serviço tenha qualidade, evitando assim erros do passado, nomeadamente o lançamento do WAP e do GPRS.

De quem é culpa?

Eu acho que aqui a culpa é de todos. E quando falo em culpas de todos, é mesmo de todos, porque isto é o resultado de um entusiasmo que houve em termos desta tecnologia e de vermos que estava toda a gente (governos, fabricantes de telemóveis e operadores) um pouco eufórica, pela forma foi anunciado o WAP e o GPRS e mesmo o UMTS. O que se passou depois foi que não houve tempo de maturar convenientemente estas tecnologias e os operadores começaram a equacionar melhor os seus investimentos, a equacionar se os consumidores estariam preparados e se iriam aderir aos serviços. Começaram basicamente a interrogar-se a preocuparem-se em garantir que tudo estará bem quando a tecnologia for lançada.

Acha que Portugal lucrou com o facto de não ter seguido a política de leilões das licenças verificada noutros países europeus, e que tantos resultados desastrosos originou?

Acho claramente que sim.

Já têm algum equipamento pronto para entrega?

A estratégia da LG em termos de UMTS é de alguma forma diferenciadora porque nós temos um terminal, o K8000, que serve para os desenvolvimentos, os tais testes que são necessários fazer. É um terminal muito interessante porque podemos já hoje ver nele aplicações de UMTS a correr, e é neste momento procurado por todos os operadores, sabendo estes à partida que não vai ser lançado no mercado…

Porquê?

Por se tratar de um terminal que é só UMTS, não Dual Mode, e a sua função é precisamente de ajudar a maturar e permitir a todos o desenvolvimento das aplicações de terceira geração.

Qual é a visão da LG em relação à 3G? Acha que será mais direccionado para o dito homens de negócios ou para o cidadão comum?

Em todas estas tecnologias normalmente existe um grupo inicial, chamados pioneiros, que estão muito dentro das questões tecnológicas e que são normalmente os primeiros a aderir a este tipo de produtos. Mas o UMTS, aquilo que vai trazer ou aquilo que esperamos que venha a trazer, em termos soluções e de serviços, será claramente para toda a gente. Agora… não vão haver com certeza na fase inicial, pelo da parte da LG, terminais de preço mais acessível, porque os equipamentos UMTS obrigam a grandes investimentos, e serão poucos.

Uma previsão feita pela consultora Thinking Box aponta para uma taxa de penetração do 3G nos próximos cinco anos que poderá atingir os 50 porcento na Europa, e nalguns países esse valor poderá chegar mesmo aos 75 porcento. O que pensa a LG face a esta previsão bastante optimista, e se Portugal se poderá incluir nestes 75 porcento, dado o sucesso do GSM?

Portugal é um país que, em termos tecnológicos – nós vemos a forma como usamos as caixas de Multibanco – adere de uma forma massiva. A questão será de balancear sempre o custo/benefício. Temos que ver como estas fórmulas vão funcionar, e em função das mesmas, dos serviços que forem incluídos nos equipamentos, ou seja, se houver uma tecnologia fácil, acessível e se ditos serviços interessarem aos consumidores, de certeza que a adesão será incondicional.

Como é que a empresa imagina as comunicações daqui a 50 anos?

(Risos) Essa foi a pergunta mais difícil de todas, porque é muito complicado nós conseguirmos hoje imaginar como é que as telecomunicações vão ser daqui a 50 anos, porque… se por exemplo recuarmos 50 anos, seria inimaginável, ou estaria mesmo dentro daquele imaginário do Júlio Verne, o estado das coisas hoje em dia. Não consigo sequer imaginar.