Gasolina e Telemóveis: explosão ou ficção?

Desde 2003 que a utilização de telemóveis em bombas de gasolina é proibída por lei. Tudo por causa de uma explosão numa estação de serviço na Malásia que correu mundo. Mas serão os telemóveis mesmo perigosos ou tudo não passa de uma manobra de diversão para evitar investigações mais profundas. Um estudo de um investigador da Universidade de Kent levanta a questão e iliba o “fiel amigo”.

A proibição do uso de telemóveis em bombas de gasolina, que teve início legal em Portugal em 2003, baseada numa famosa explosão numa estação de serviço da Malásia, pode estar alicerçada em pressupostos científicos errados ou, no mínimo, muito discutíveis. Quem o defende é Adam Burgess, professor da Universidade de Kent, em Inglaterra, que empreendeu exaustivas investigações acerca do que apelidou de “Mito dos Telemóveis Causarem Explosões em Estações de Serviço”.

De acordo com as conclusões de Burgess, é muito mais fácil “culpar” um telemóvel por uma explosão numa bomba de gasolina do que investigar as suas causas em profundidade. Para o investigador, a estática acumulada pelo aparelho e potencial causadora de incêndio muito dificilmente seria suficiente para causar a explosão, pelo menos não mais do que a energia potencial oriunda de uma camisola de lycra, por exemplo.

Burgess sustenta que a proibição do uso de telemóveis em bombas de gasolina só se mantém porque previne a distracção dos condutores ao abastecerem o veículo. O professor, autor do livro “Cellular Phones, Public Fears and a Culture of Precaution”, vai mais longe: “A quantidade de energia é baixa demais para causar qualquer tipo de efeito físico, particularmente no que respeita aos telemóveis mais modernos. Acresce o facto de que causar uma explosão não é fácil. Por mais intuitivo que possa parecer, não é sequer possível que um cigarro aceso cause a explosão de gasolina porque, simplesmente, não tem calor suficiente”.

Além disso, Burgess defende que a proibição do uso de telemóveis em estações de serviço tem consequências nefastas, nomeadamente o confronto entre clientes e empregados das referidas estações, o desvio das atenções para os perigos reais de incêndio – sobre-enchimento dos tanques ou colisões – e a estigmatização dos aparelhos.

Rumores e desmentidos

Outras investigações tornaram clara a impossibilidade virtual dos telemóveis serem os causadores deste tipo de incêndios. Várias conclusões científicas extraídas de uma conferência que teve lugar em Londres, em 2003, levaram a que os representantes da indústria móvel no Reino Unido pressionassem activamente o sector petrolífero para revogar a proibição.

Uma mensagem de correio electrónico que tem circulado recentemente pela Internet, supostamente emanada da Shell Oil Company, alerta para os perigos do uso de telemóvel em estações de serviço, avançando com números estatísticos acerca de alegados incidentes do género nos EUA. O gigante petrolífero já desmentiu a autoria do e-mail, mas o desmentido teve pouco impacto face ao elevado nível de circulação da falsa mensagem.

O que é facto é que, apesar das investigações científicas e dos desmentidos públicos, a ideia que prevalece é a de que os telemóveis são, de facto, potenciais causadores de incêndios em bombas de gasolina. E a proibição da sua utilização nas estações de serviço continua em vigor, sendo a sua vigilância cada vez mais apertada. Até quando? E a quem poderá interessar? As questões ficam no ar, mas para aceder na íntegra à pesquisa do professor Burgess, basta ir ao link respectivo na página da Universidade de Kent.

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