Japoneses assustam Europa: 3G dará prejuízo

A NTT DoCoMo, que oferece no Japão uma alternativa ao WAP, diz que o UMTS na Europa nunca vai dar lucro. Entretanto, é investigada por concorrência desleal.

A japonesa NTT DoCoMo, empresa que providencia um sistema alternativo ao WAP, não tem dúvidas: a terceira geração (3G) de telemóveis vai dar prejuízo às operadoras europeias. Foi o próprio presidente da companhia, Keiichi Enoki, que resolveu lançar esta semana a “dúvida existencial”. Ele diz que as operadoras terão dificuldade em justificar o investimento. «Não penso que o modelo de negócio irá mudar muito da segunda para a terceira geração. A essência do negócio dos telemóveis continuará a mesma.» A DoCoMo, que está a testar nova tecnologia 3G, considera inviável o uso de grandes «clips» de som e imagem – precisamente as vantagens que poderiam aumentar os lucros dos operadores. A tecnologia 3G proporciona velocidades superiores à 2G, permitindo o envio de imagens de vídeo a cores e música de qualidade superior directamente para os terminais. Mas o patrão da DoCoMo avisa que será muito caro fazer estes «downloads» para os telemóveis, porque eles consomem quantidades enormes de frequência. «A conclusão», diz Enoki, «é que talvez teremos de oferecer ‘clips’ de 10 a 15 segundos e amostras de música que as pessoas possam comprar para depois fazerem o ‘download’ através dos seus PC ou televisões». Ainda na opinião de Enoki, a melhor hipótese das operadoras obterem lucro seria cobrar comissões na transacção, bem como vender publicidade. O Japão vai ser o primeiro país do mundo a oferecer os serviços da 3G já a partir de 2001. A experiência do país constrasta com a inciativa de outros operadores, como a inglesa Vodafone, que planeia descarregar música através de redes de telemóveis. A DoCoMo diz também que os telefones vão servir para encomendar conteúdos multimedia, mas que serão entregues com custos mais altos através de redes de operadoras. O pessimismo da DoCoMo relativo ao potencial da 3G pode diminuir a confiança das operadoras europeias, precisamente numa altura em que os investidores questionam os altos níveis de dívida gerados pelos custos de implementação do UMTS. Keiichi Enoki resolveu lançar os seus comentários um mês depois de ter sido aberta uma investigação contra a NTT East pela comissão que controla a concorrência japonesa. A NTT East, uma das divisões regionais da NTT, é acusada pelas rivais de bloquear os seus pedidos de acesso às centrais para podererem oferecer os seus serviços através da Internet. De acordo com as denúncias dessas empresas, a NTT East, que controla mais de 90% das linhas telefónicas da parte oriental do Japão, abusou do seu predomínio de mercado para paralisar os pedidos das empresas de telecomunicações que usam linhas digitais (DSL). No Japão, as empresas que oferecem serviços DSL precisam de instalar os seus próprios equipamentos nas centrais das operadoras da rede, como a NTT East, para lançar os seus serviços. Segundo duas dessas empresas, a eAcess e a Tokyo Metallic Communications, a NTT East levou entre cinco a nove meses para negar os seus pedidos de instalação de equipamentos e cobrou cinco milhões de ienes (cerca de 11 mil contos) pela instalação. Apesar do clima instalado, Keiichi Enoki continua calmamente com as suas previsões catastróficas. Para além das observações sobre o UMTS na Europa, diz ainda – numa afirmação dirigida aos seus concorrentes locais – que os telemóveis com ligação vídeo entre os utilizadores também não resultarão: pura e simplesmente porque «a maior parte das pessoas não vai querer ser vista pelo outro com quem está a falar»…