Operadores não levam a Flate Rate a sério

Seminário sobre ‘As Comunicações e a Sociedade Portuguesa’ reúne figuras de topo das operadoras na AESE. O resultado foi polémico e esclarecedor q.b.

Decorreu ao longo do dia de hoje, nas novas instalações da AESE – Escola de Direcção e Negócios, em Lisboa, um seminário consagrado à temática “As Comunicações e a Sociedade Portuguesa”. O painel da manhã foi especialmente consagrado aos novos desafios das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), sector que pesou 1.8 biliões de contos (8%) no Produto Interno Bruto (PIB) nacional o ano transacto e se estima, mediante os investimentos anunciados pelos operadores, vir a pesar 2.5 biliões (11%) do PIB do corrente ano.

Pese embora o pendor sociológico da epígrafe, correspondendo ao âmbito de acção da entidade organizadora – e aos interesses do público assistente, maioritariamente constituído por executivos e administradores seniores, no total de cerca de uma centena – o debate centrou-se essencialmente em torno dos condicionamentos tecnológicos das estratégias das empresas nacionais. Os presentes teceram ainda algumas críticas consistentes à insuficiência do papel do ICP enquanto instituição reguladora do sector, mostrando-se – com excepção da PT – favoráveis ao estabelecimento alternativo de uma instituição de regulação da concorrência.

No essencial cada um dos participantes defendeu a sua dama, isto é, a tecnologia para a qual melhor está posicionado. Assim, havendo generalizado consenso entre os operadores sobre o facto de a “sociedade de informação” só ser possível mediante a generalização da internet de banda larga subsistem, no entanto, opiniões totalmente distintas sobre o modelo que o vai possibilitar. Se a PT Comunicações jura a pés juntos que o futuro para todos, utilizadores domésticos e empresas, é a tecnologia DSL (vulgo ADSL), que basicamente utiliza a actual infra-estrutura de fios de cobre da rede fixa, em distintas frequências, possibilitando a transmissão de dados em larguras de banda até à casa dos Mbits, já a concorrência, nomeadamente pela boca de Joaquim Chaves, da Jazztel, defende que o DSL é uma solução transitória direccionada para o mercado empresarial enquanto a fibra óptica não chega – uma espécie de segunda geração e meia da internet fixa. Para o mesmo Joaquim Chaves, da mesma maneira, para os utilizadores domésticos a solução natural e óptima é a generalização do cabo.

Diogo Silveira, presidente da Novis, no entanto, manifestou-se mais moderado, particularmente quanto às virtualidades do acesso sem limite de horas, vulgo Flate Rate. De facto, o Eng. Silveira, defendeu que a Flate Rate não é querida pela generalidade dos utilizadores e que, quando implementada, vai beneficiar apenas uma franja de utilizadores mais intensivos não indo fazer grande coisa pela generalização da web em Portugal.

Adelino Santos, presidente da comissão executiva da Teleweb, empresa pioneira no lançamento efectivo, esta semana, de um pacote de acesso sem limite de horas para clientes empresariais, manifestou igual opinião, recordando que os clientes residenciais da Teleweb fazem em média uma dúzia de horas de horas mensais.

O que ninguém lembrou foi que, dado o regime de acesso “gratuito”, virtualmente não existem clientes exclusivos, e os mesmos utilizadores ligam-se alternativamente pelos diferentes ISPs.

Tendo em vista o mercado das PMEs, o homem da Teleweb assumiu ainda defesa encarniçada da transmissão via rádio, extra GSM, através da tecnologia FWA, no que apontou o dedo à PT face às dificuldades em obter muitas vezes licenças para instalação de antenas – no que, segundo disse, os novos operadores seriam discriminados junto de muitas autarquias face ao ex-operador público.

Carlos Antunes, presidente executivo da PT Comunicações assumiu, por seu lado, uma defesa abnegada face às acusações de que a empresa foi alvo, nomeadamente, ainda, no que toca o processo de emperramento e inexistência global de concorrência à Netcabo, com a atribuição à PT de 10 das 19 licenças de exploração.

UMTS: Um Problema de Expectativas

Quanto ao UMTS, dito terceira geração móvel, constatou-se o predomínio de um optimismo moderado, apenas contrariado pelo entusiasmo de António Vidigal, administrador da ONI, uma das empresas a quem foi concedida a licença de exploração do novo sistema de comunicações móveis, face ao desafio estratégico confrontado pelos operadores de GSM: passar ou não directamente para a terceira geração queimando a etapa do GPRS, dito de segunda geração e meia?

O problema é tanto mais agudo quanto a pressão, mormente da NTT DeCoMo promotora do I-mode japonês, correntemente com vinte milhões de utilizadores, tende a sobrepor os prazos. Assim, se em termos gerais os modelos com GPRS só devem estar disponíveis e banalizados junto do grande público dentro de meia dúzia de meses e até ao final do ano, o certo é que, nessa altura, já a empresa japonesa conta ter lançado o serviço e obtido a adesão de 200 mil utilizadores na área de Tóquio. Ademais, acresce que, utilizando a actual estrutura GSM, o GPRS apresenta limitações a nível da largura de banda e das capacidades das antenas que só a prática dirá se se revelarão ou não problemáticas.

O Eng. Mira Amaral, moderador do painel da manhã, defendeu a este propósito um modelo explicativo fundamentado na variável “expectativas do consumidor”. Para o ex-ministro e piloto de rally nas horas vagas, o sucesso do I-mode japonês tem tanto a ver com o modelo de débito – com uma ligação permanente que cobra apenas de acordo com o volume de informação descarregada – quanto com o facto de os japoneses não estarem tão habituados à internet como os americanos e os japoneses e, por conseguinte, não sentirem tão agudamente o impacto colossal, pela negativa, que as limitações do WAP impõe. Amaral esqueceu de mencionar foi, porém, o suporte para cores no protocolo japonês, o que por si só obvia grande parte desta barreira.

A “killer application” da estratégia da NTT DoCoMo foram as aplicações lúdicas, o que lhe permitiu fidelizar um público mais jovens. Qual será a corresponde pedra angular do UMTS?

A fazer fé mais uma vez em António Vidigal, da Oniway, o sucesso do UMTS será sobretudo constituído pela chance de acesso ao e-mail e à gama de funcionalidades que, segundo o estereótipo do mercado português, permita aos utilizadores manterem-se em contactos e fomentarem “o espírito de tribo”, em cujos antípodas estaria o exemplo do stream de vídeo (que o GPRS não consente) do emigrante em Paris observando o pai no médico em Vila Pouca de Aguiar.

Resta, no entanto, como argumento objectivamente válido que, para quem já se habituou à internet fixa, em PC, o UMTS e os micro ecrãs que ele promete podem ser uma grande frustração de expectativas. Existirá algures um limite óptimo entre os bombardeamentos do marketing e o limite de saturação respectivamente suscitado nos consumidores. O risco de um efeito de “back fire” do UMTS sobre os seus promotores é real.

Depois do B2C e do B2B: o B2T

O mercado das telecomunicações, e do UMTS, em particular está mundialmente mergulhado num justificado pessimismo que é fruto directo do endividamento das empresas, mormente para adquirirem as respectivas licenças.

Não é que o financiamento pelos bancos não continue potencialmente a existir, o problema reside mais na retracção gerada pelo élan de “problemas à vista” entretanto gerado por críticos e analistas.

A exemplo ascensão e tombo das Dotcoms num passado recente, as TICs vivem um período de contenção na euforia – epitomizável, a outro nível, e da mesma maneira, pela aplicação de filtros aos Napster e ao fim da ilusão do “é proibido proibir” dos primeiros pioneiros da internet.

Nem de propósito, e por piada oportuna, a Jazztel fez questão de oferecer aos palestrantes um kit especial, composto por uma gravata com a correspondente tesoura – com um implícito convite à aplicação da segunda sobre a primeira.

Segundo Joaquim Chaves, quando as sombras se avizinham, os velhos do Restelo e as propensões conservadoras do “eu bem te disse” não faltam. Depois dos modelos Business to Consumer (B2B) e Business to Business (B2B), o e-business está a ingressar na não tão nova fórmula do B2T – Back to Tie.

Hugo Valentim